Meu novo vizinho do 605 - Capitulo 1
- Lembro bem do dia em que percebi, que o apartamento vizinho não estava mais vazio. Eram umas 09:30 da manhã do sábado e eu já estava puto. Rolei de um lado pro outro na tentativa irracional de esquivar do som, que vazava pelas paredes, segurava a minha orelha e gritava: ACORDA FILHO DA PUTA!
Por fim, já vencido, levantei. sentei no sofá da sala e fiquei "admirando" meus pés. Pé é a parada mais bizarra do corpo humano, fico pensando as vezes nessa galera que tem fetiche com pés...bicho, tu tem fetiche com a parada mais estranha do corpo e isso é um pensamento totalmente unisex.
Descartei o pensamento e andei (com meus pés estranhos) até a bancada da cozinha. Café é algo necessário na vida de qualquer ser de bem e eu precisava daquilo e de um cigarro pra enfrentar aquela manhã fria e cinza.
Enquanto a fumaça da cafeteira vazava pelas arestas, o som do vizinho mantinha o ritmo. Naquele momento com o cérebro um pouco mas desperto, a musica já fazia mais sentido e até soava semelhante. Pouco a pouco eu buscava em minha preguiçosa memória que banda era aquela. Algo grunge? Não... mais pro Punk talvez!
A cafeteira bipou, saquei uma xícara do armário e numa sequencia de movimentos treinados, em questão de segundos eu já estava com café em uma mão e cigarro aceso na outra. Fui em direção a varanda, ainda com a questão da musica na cabeça. Quando lembrei o refrão da musica: "I don't want to be buried in a Pet Semataryyy".
Sabe quando você acabou de acordar, ta com aquele short tosco, de meia e blusa de manga (sem as mangas) e lembra de alguma musica que te faz cantar e dançar? E não um simples dançar, mas dançar como você só dança, quando não tem ninguém pra rir de você? Então, foi assim que cheguei na varanda, fiquei ali ainda fazendo aquilo (não sei bem o nome pra isso que eu estava fazendo), quando me dei conta pela visão periférica, que tinha alguém me observando. Nessas horas você tem duas opções, ou fica sem graça e tenta se jogar de onde você estiver, ou continua o que ta fazendo e pensa em algo engraçado pra dizer. Fiquei com a segunda opção por burrice mesmo, virei pro lado e falei: "Bad religion é muito bom, né?".
Da varanda do 605 ela ri numa risada gostosa. Gosto de acreditar que ela ria da situação e não da minha capacidade de confundir Bad Religion com Ramones. Ela rebate após se recuperar: "é Ramones, mas Bad Religion também é uma boa. Graças a Jah não vou ter problema com teu gosto musical pelo visto. Morei quase 4 anos ao lado de um estudante de direito, que só escutava Sertanejo Universitário!"
Confesso que demorei uns 20 segundos analisando a guria, tinha um estilo e uma beleza interessante ali. Mas em seguida respondi: "e quem te garante que eu não sou fã de Jorge e Matheus?". Ela torceu o pescoço, fez uma cara de poucos amigos e completou: "Comecei mal, mas já fica sabendo que vou te julgar pelo seu gosto musical". Eu ri e ela desapareceu levando uma caixa da varanda pra dentro do apartamento.
Entrei também processando o que ela falou e registrei mentalmente o "...graças a Jah...". Pensei que perdi uma oportunidade de estender esse assunto dizendo: "eu é que não vou ter mais problema com cheiro de maconha". Passei 2 anos ouvindo o seu Ronaldo, um policial aposentado, gritando do 605 que ia me denunciar.
Eu sempre penso nas possibilidades de uma conversa assim que ela acaba, como um exercício mental pra próxima conversa da vida.
Continua...
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