O Tempo que tem Pressa
No escuro estremunhado, antes mesmo de abrir a cortina dos olhos, vem chegando o
tic tac. O que antes era apenas silêncio - vestido do uníssono sonido das
folhas agitadas pelo vento -, agora se suspende pelo crescente som...
tic tac...
...tic tac
...tic tac
O ruído não vem só, com ele uma sensação de urgência que permeia o
pensamento e se alastra. Fica evidente o fracasso que seria ignora-lo. Tampouco é sucesso admiti-lo. Mas, arbitrariamente, ele continua tic tac... tic
tac... a medida que se manifesta, uma inquietude que varre a cabeça revela que
você tem pressa.
Cambaleante, se retira da cama e do sossego jaculatório. Ainda que na
transitante sonolência que estrabisma e comprime os olhos entreabertos, toma uma
ducha rapidamente e veste a roupa devorando duas torradas. Tomado pela agitação
repentina que se faz presente, sustentada pelo tic tac que se intensifica persistente,
deixa pra depois amarrar os cadarços do tênis. tic tac tic tac Também adiou arrumar os cabelos,
ajeitar a gola da camisa e fechar um último botão. Antes de sair, recolhe
algumas moedas na cabeceira da cama, guarda carteira e celular no bolso da
calça, pega a mochila e sai correndo de casa...
Alcança o ponto - e o tic tac acelerando – mas chega bufando, tentando
inspirar todo ar que lhe faltava, aguardando impotente a chegada do ônibus. Batendo
os pés de ansiedade que marcam o ritmo do tic tac.
Confere mais uma vez o relógio na esperança de frear o tempo. Quando o transporte ancora sobre o ponto não dá tempo de saborear um conspícuo alívio. tic tac tic tac... Salta para dentro do busão e procura um
assento. Já sentado mas ainda apreensivo, não consegue desprezar o tic
tac que teimoso se apressava. A viagem é lenta, a ansiedade individual. Nas feições que dividem o espaço
comprimido do ônibus, nenhuma transparece tanta agonia.
tic tac tic tac... a mente já não se prende em qualquer coisa, tudo acompanha sua cadencia. Os pensamentos voam rápidos, seguindo o toque hiperativo, sempre dando espaço para ser intercalado ou invadido pela batida.
tic tac tic tac... a mente já não se prende em qualquer coisa, tudo acompanha sua cadencia. Os pensamentos voam rápidos, seguindo o toque hiperativo, sempre dando espaço para ser intercalado ou invadido pela batida.
Em meio aquela multidão que se apertava, sentado com os pés seguem na marcação
do tic tac, os dedos batucam na perna, a testa se aquece, o tic tac se
amplifica.
Quanto mais próximo fica do destino mais rápido fica o tic tac - tic tac tic tac tic tac -, mais
alto, mais lento fica o movimento ao redor. O ônibus parece deslizar no asfalto sem
muita afobação. Os olhares de meditação permanecem indiferentes - tic tac tic
tac -, a mente acelera ainda mais enquanto mundo permanece surdo e calmo. Tudo está em
ordem, exceto aquele pequeno indivíduo e seu caos particular. tic tac tic tac tic tac...
Quando chega ao destino pula para fora do ônibus numa perpendicularidade calculada tic tac tic tac... Corre
mais um pouco até chegar ao trabalho e goza o relógio pela última vez, agora sabendo que aquele tempo curto fora tempo suficiente ou quase isso. Não
percebeu que o mundo voltou a girar novamente. De tão alucinado, toca o
interfone enquanto os pés ainda atingem freneticamente o chão. Quando o portão se abre ele adentra a passos lépidos e toma as escadas saltando três degraus de cada vez, até
chegar na sala. Finalmente senta na cadeira, volta a respirar novamente e limpa a testa molhada de suor. Tão logo é servido o café. Até finaliza-lo com o último gole, ele não perceberá que aquele tic tac havia ido embora.
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