Nas curvas prolixas das cartas ao Papai Noel - Uma linha aleatória no pensar sobre o que o Natal pode representar

A nostalgia quase melancólica - com a delicadeza que exige algum esforço - alveja tudo. Assim como as primeiras gotas de chuva quando tocam com graça a grama molhada de sereno. É 25 de dezembro, o relógio bate às 8:00, e antes mesmo que o calendário do celular pudesse me apontar isso, tudo em volta já gritava a ocasião.

Os primeiros sinais surgem através da vó que recolhe as toalhas de mesa do varal enquanto brada a neta instruções de onde instalar a mesa, organizar as cadeiras, amparar convidados. Meu quarto, que fica ao lado de onde se situara tal mesa, tem privilégio acústico garantindo que todos os decibéis emitidos sejam entregues prontamente em meus ouvidos. Sou acordado pelo estrondo das ordens. Desisto de tentar outra soneca depois da terceira orientação berrada. Pressionar o travesseiro contra o rosto não ajudou.

Se lá fora é garoa, aqui dentro, na minha fortaleza e sob a coberta, o ambiente não poderia ser mais acolhedor. Desperto esfregando os dedos sobre os olhos, ligo a TV e corro a mão pela cama tateando a fim de encontrar o celular. O maldito sempre se esconde entre as camadas de manta, edredom e lençol.

Na televisão uma infinidade de canais com programas sobre o feriado. Dicas para onde ir, o que preparar para ceia, quais as receitas que estão bombando para noite de natal; zap, programas natalinos destinados à família com mensagens de conforto e prosperidade para o futuro; zap, no Polishop, a propaganda anuncia mais um novo produto capaz de descascar nozes, avelã e amêndoas de forma sofisticada, rápida e simples, zap.

Os dedos ficam agitados na medida que atravesso o leque de canais oferecidos pela TV. zap. Uma sinfonia de coisas feitas para reter a sua atenção à primeira vista, zap zap zap. Entre uma sintonização e outra, as vezes estática, as vezes passo tão rápido por um canal que não me dou conta sobre o que tá passando. A zapeada pelos canais de filmes vai deixando tudo mais óbvio. Duro de Matar, na TNT. Na Fox tá passando De Volta para o Futuro. Também anunciaram De Volta para o Futuro 2 para próxima sessão e, mais tarde, vai passar o terceiro filme da franquia encerrando a trilogia. No HBO Family, Esqueceram de Mim. Um canal que exibe cinema clássico escolheu A Felicidade Não se Compra. Noutra emissora, mais descontraída, eles seguem a programação com O Natal Maluco de Ernest. As estações parecem desdenhar do espectador durante os períodos matutinos. Numa manhã de natal aquilo pode virar um caos de clichês ou simplesmente explicita a preguiça do operador da grade de programação. E quem não sente preguiça numa manhã fosca e fria?

Desisto de novo. Levanto.
O café vem acompanhado de chocotone - a versão decente do panetone. Após finalizar o lanche, tomo uma ducha e logo fico mais reflexivo, pensando a respeito da data e sobre o que ela deveria representar. Sempre penso demais durante o banho. E um pouco mais após o banho se o que estive pensando durante o banho valer a pena.

Natal, ok (deixo escapar um "ahh" meio canto de boca - que expressa um misto de frustração, chateação e, na maior parte, tédio). Família. União (ou seja, vai vir geral pra cá. Tios e tias. Todos interessados nas questões pessoais da sua vida. Quem disse que a privacidade importa?). Generosidade. Empatia. Amor. Uma ostentação com centenas de luzes numa disputa para decidir a melhor decoração da vizinhança??
Ou penso em ideias de tão nobres quase intangíveis para o mundo de hoje. Ou penso na degradação. Com tantos opostos extremos, o cinza nunca pareceu tão agradável (já marquei na agenda 2018: permanecer quanto tempo for possível no cinza).

Fui cristão por poucos anos durante a juventude. O bastante para me deixar um pouco bitolado (no que rege alguns conceitos, nada profundo). A fase logo fora comprometida por uma sequencia brutal da soma: tempo + realidade contextual + uma pitada de ceticismo, desencadeada por uma suposta racionalidade. A gente que só acredita no que vê se acha tão esperto.

Quando moleque achava que ver tudo que viveria com o passar dos anos deveria atribuir sentimentos de otimismo, fé, esperança, sabedoria. Ingênuo. Sempre achei que o futuro seria maravilhoso. Eu queria ir correndo pra lá. De certa forma, todos corremos pra ele. Hoverboards, sabres de luz, auto-suficiência, energia limpa, um mundo sem conflitos. Teríamos franquias e mais franquias de parques aquáticos - com entrada franca, um sorriso honesto valeria - onde fora um dia o sertão. Assim como a garantia de uma sociedade igual, iluminada, justa. Um mundo unificado, cooperativo, equilibrado. Nossa única fronteira seria o espaço. Otimismo que só evidenciava minha imaturidade e conhecimento do mundo.

Essa utopia infantil ficou só na minha cabeça. Lá ela perdurou até certo tempo, depois esvaiu-se. Como numa overdose de comprimidos ansiolíticos. Fechei os olhos e aquela falsa paz foi tomando tudo numa nuvem de conformismo desenfreado. Estava tudo bem. Mesmo quanto não estava. Até não restar mais nada.

Talvez o futuro ainda não tenha chegado. Talvez tenhamos naufragado num limbo entre a dura realidade do presente e as incertezas do amanhã. Talvez.
Esse sentimento ou fé sempre retorna em dezembro. Surge sobre o globo indiferente aos miseráveis e pessoas com culturas que não celebram a data, uma neblinosa sensação de paz. O ano acabara e para muitos isso pode significar uma grande mudança. Ou oportunidade para um ano novo que pode vir a ser melhor. Uma época mágica de otimismo e lançamos alguma devoção sob ela esperando uma resposta lúdica e onírica. Com mãos fechadas e olhos apertados torcemos para que o melhor nos atinga como uma bigorna da ACME Corporation.

Mas tem se dissipado.
O natal de hoje foi roubado de muita gente por todos os escândalos de corrupção que dia-após-dia acompanhamos na TV. Impunidades. Injustiças. Seguido de massacres em escolas. Desigualdade. Taxas estratosféricas de violência. Mais corrupção. Mais impunidade. Mais injustiças. Terrorismo. Fome etc etc...

Isso da porta pra fora. Cada família tem seus conflitos e, quando não o resto do mundo, nos servimos do trabalho sujo de tirar das crianças (e de nós) um pouco do brilho (que restou) que só tem que vive a puerícia (ou viveu e ainda se lembra). A gente se afeta e afeta uns aos outros usando as piores desculpas do mundo. Ou finge que não vê e olha para o outro lado. Um baita tiro no pé. Um tiro de .12 em pés descalços, eu diria. Cegos, não percebemos o mal que promovemos a nós mesmos. O mal, claro, se espalha sem muita dificuldade até chegar naqueles que não celebram o natal. E nos miseráveis. Esses sempre recebem primeiro a consequência do que fazemos de pior.

A verdade. Enquanto tenho uma cama quente que interrompe o frio molhado que há lá fora, milhares de crianças enfrentam a chuva, na falta de alguém para abraçar e dizer que tudo vai ficar bem.
Todos sofremos por algo, a desgraça alheia não diminui o valor dos nossos próprios tormentos. Pior, faz com que nos sintamos pequenos, rasos, supérfluos.
Talvez dia 25 não seja como diz a cultura popular. Talvez não seja para celebrar o nascimento de Jesus, mas para agregar em si suas virtudes, replicar suas atitudes e praticar suas ideias e ensinamentos. Refletir a respeito de tudo que fazemos de errado e tentar corrigir. Fazer algo a respeito. Acho muito válido tentar um novo caminho, uma nova forma de pensar. Navegar em uma nova direção nunca foi tão preciso. O cara não falava tanto sobre amar? 2000 anos depois e não sabemos quase nada a respeito, vide o mundo como se encontra. A prioridade não é um skate que anda no ar, gente (ainda. Ele é a segunda parte do plano).

Também na minha busca por entretenimento matinal encontrei outro filme clássico passando num dos muitos canais explorados pelos olhos atentos que acompanhavam o movimento de clique do dedo. Parei imediatamente. Uma Nova Esperança, um filme sobre mundos, num tempo atrás e numa galáxia muito, muito distante, sendo dominada por uma força terrivelmente opressora que precisa eliminar uma aliança que se rebela contra esse mal. Em um dos muitos mundos apresentados, no meio do nada (no deserto de Tatooine, pra ser mais específico), surgiria um jovem herói cujo destino é trazer esperança a galáxia. Incrível pensar que uma pessoa (não que ele tenha feito tudo sozinho) pode fazer a diferença.

Eu nunca fui Luke. Não tenho o mesmo estilo do cara, pensamento, filosofia nem uma personalidade parecida, além de desistir de muitas batalhas. Errei mais do que gostaria, e tenho contas a pagar. Sou o Solo que não busca uma redenção. Tento garantir o meu e, de vez em quando acerto e faço o bem a outrem também. Tá faltando só a Leia.
Carrego comigo uma faísca daquele sentimento de quando era moleque. Ainda resiste dentro de mim uma esperança. Uma Nova Esperança. Bom, não tão nova, mas ainda jovem. Ainda acho que dá pé. Ainda é possível. Ainda há esperança.

Nesse caso, que possamos ser mais hoje. Façamos mais. Para que juntos a gente consiga construir um futuro ideal, com hoverboards, sabres de luz, naves interstelares e uma galáxia que prospera em saúde, educação, luz, amor, muita união. Que a força esteja conosco.

Paz. Feliz Natal. ho ho ho

Comentários

Postagens mais visitadas