A rotina que nos leva pra lá

Acordou desavisado e, ainda embriagado do sono, se arrastou para o banho. Apenas permitiu que a água quente escorresse pelo corpo amassado, lavou o rosto e pulou pra fora da ducha. Escovou os dentes enquanto calçava cueca, depois a calça. Bochechou o enxaguante à medida que vestia meias e tênis. No marasmo alucinado matutino correu para o ponto atrasado. Pegou o ônibus.

Porque morava distante do escritório o trajeto era longo e exigia 3 conduções. Com o tempo desenvolveu naturalmente rotinas aleatórias dentro de cada transporte. Eram 3 ônibus e em cada um a possibilidade de descansar, refletir, entreter-se ou apenas observar.

Se no primeiro descansava apenas fechava os olhos. Investigava sobre algo que estava pensando e analisava cada detalhe até pegar no sono. Era tão bom com detalhes que não demorava a dormir, também havia o sono para pôr em dia, então dormia.

Já no segundo era sempre algo diferente. Eventualmente lia um livro e estava sempre tentando dar fim a uma vasta fila de livros que havia deixado para ler depois. O depois era geralmente no segundo ônibus. Buscava então o livro dentro da mochila e o apanhava com algum cuidado. Lia e lia até chegar onde devia. Quando não, percorria os dedos apressados sobre a tela deslizante do telefone numa busca acelerada por informações. Acessava suas redes. Freneticamente devorava as notícias, apesar de não gostar da maioria das coisas que via. É sempre reativo ao que se lê quando o que lê tem temática política, social, econômica. O idealismo utópico é sempre mais forte pela manhã antes do café.

No terceiro a viagem era mais curta, durava apenas alguns minutos, restava pouco para chegada e por isso o obrigara a ser mais objetivo. Não valia ler pois não haveria tempo suficiente para reter o conteúdo do que se estava lendo, muito menos refletir a respeito. Também as notícias - pelo menos, mais relevantes, geralmente - eram obtidas na segunda parte do curso.

Restava correr o bolso e apanhar o celular. Espetava fone de ouvido no aparelho. Quando não jogava sudoku ou o que mais havia ali, decidia ouvir música. Era sempre indeciso sobre o que ia escolher. Rock australiano ou Jazz? MPB? Gostava de harmonizar a música com seu emocional. Se pra baixo estava escolhia um blues. Contemplativo preferia ouvir música clássica, instrumental ou algo do tipo. Bem humorado optava por rock noventista, pop e punk rock. Agitado, eletrônica... sempre permitindo que a aleatoriedade assumisse o rumo dali em diante. Sempre em sintonia. Música e emocional. Equilibrava com a perfeição de quem praticara diversas vezes equacionar essa situação.

Concentrava-se naquilo que ouvia mas também ficava atento ao que se via, mantendo seu par de olhos míopes arregalados para onde quer que eles fossem. Registrava o que via como uma Polaroid.

Mirava em rostos cansados, quase inexpressivos, imaginando onde saltariam? E por quê? Se havia alguém para se despedir ao partir para sua rotina? Se haveria alguém para recepcionar quando retornasse de sua rotina? E qual seria sua rotina? E a rotina após essa rotina?

Depois esquecia-se dos olhares, como as fotos de Polaroid desbotadas com o tempo. Detalhes nunca duram muito. Os rostos que viu foram se apagando até não terem olhos, bocas, nariz, cabelo. Transformaram-se em manequins cotidianos. A particularidade de cada um e suas rotinas uniformizaram-se numa massa homogênea. Todos viram um, mesmo que muitos foram precisos para atingir essa forma singular. 

Ainda a deriva de seus devaneios do terceiro ônibus, examinava as paisagens humanizadas que misturavam com as naturais. Apreciava olhar o mato e se via atravessando a vastidão selvagem que se estendia para norte do que se via. Aquilo lhe conferia algum prazer inexplicável. 

Antes de perder o ponto, levantava acelerado e puxava a cigarra para dar sinal de parada. As rotinas sempre o tomavam e quase sempre era surpreendido ao se encerrarem. Chegava ao fim sua viagem e também o fim de uma rotina, para dar início a outra rotina. 

Para o Budismo não há fim ou início. Ao invés disso, um ciclo sem fim. Assim como as rotinas que nunca iniciam, nunca terminam e quando não em seu meio, apenas outra rotina para o que vem a seguir.

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